Em experimento social, se pede que meninos batam em uma menina.
Frame do vídeo Slap Her

Notícias

Em experimento social, se pede que meninos batam em uma menina.

Em uma experiência social que explora a violência contra as mulheres, se pede que meninos de 6 a 11 anos deem um tapa em uma garota.

O vídeo Slap Her (Bata nela) foi criado pela agência de mídia italiana fanpage.it, e idealizado pelo jornalista Luca Lavarone, para mostrar como tanto o comportamento violento quanto os ensinamentos pacíficos podem ser ensinados desde cedo. Mas, erra ao colocar a única protagonista mulher numa posição passiva, sem fala e opinião, e usar frases que perpetuam a violência contra mulheres e que são apresentadas como se fossem um “discurso inocente”.

O vídeo começa com os meninos respondendo a perguntas sobre suas idades e aspirações profissionais. De acordo com Lavarone, a tentativa foi fazer como nos games, convidar meninos para a brincadeira, testando seus limites.

Então, mais à frente da entrevista, os jovens são apresentados para Martina, uma menina pré-adolescente, cuja idade não sabemos ao certo.

Se pede que os garotos digam o que acham dela, ao que muitos respondem que ela é “bonita”. Depois, o diretor do vídeo pede que eles a acariciem, o que todos fazem, muitos passando a mão em seu rosto. Em seguida, que façam caretas engraçadas para ela, o que eles também fazem.

E vem, então, o último pedido: “Agora, dê um tapa nela”, incentiva o diretor. Chocados com o pedido, alguns tentam obedecer, mas logo se deparam com objeções morais. Ao fim, todos eles se recusam a bater em Martina.

Segundo Lavarone, os meninos escolheram deixar o jogo nesse ponto e disse que já esperava tal reação, porque “crianças normalmente sabem o que é certo e o que é errado”. “Eu acho que todas as pessoas que compartilharam o vídeo queriam passar a seguinte mensagem: a violência acontece quando não somos capazes de impedir a nós mesmos, quando não usamos nossas cabeças, quando obedecemos qualquer coisa menos nosso cérebro. A mensagem é: pense com seu cérebro e respeite a todos”, diz Lavarone.

O problema é que essa lógica racional de Lavarone também é falha. Porque essa imposição da lógica e racionalidade aos homens também é problemática e os afastam de suas emoções. E, principalmente, como seria possível educar o cérebro apenas na esfera individual, se a sociedade e a cultura continuam oferecendo valores machistas? Muitas vezes o que obedecemos são as regras de convívio social, que ainda ditam um mundo patriarcal, no qual homens detém o poder e são ensinados a serem violentos e duros consigo mesmos e com as mulheres. Portanto, o que é “certo” e o que é “errado” -ensinamentos passados para os filhos-, também são muitas vezes valores trocados e que incentivam a desigualdade de gênero.

Sobre a passividade de Martina, o diretor diz que não acha que esta deveria ser a postura das mulheres na vida real. “Martina é uma menina muito inteligente, ela estava orgulhosa de fazer parte do experimento: ela queria ser um símbolo para as mulheres. Martina não fala, ela é passiva, uma atitude que uma mulher não deveria ter na vida real, em que deveriam ser denunciadas as atitudes violentas contra ela. O abusador age de forma enganosa, geralmente em casa, e explora os sentimentos de amor e proteção da vítima. Esse vídeo foi criado com o propósito de alcançar o máximo de pessoas possível para chamar a atenção das instituições sobre a necessidade de se criar novas legislações e, ao mesmo tempo, para trazer esperança para as mulheres que não tiveram a coragem de denunciar”, disse o jornalista italiano.

Infelizmente, o vídeo também deixa uma mensagem de submissão das mulheres. Permitir que os meninos a toquem, por exemplo, sem que ela dê consentimento, também é violento. E as respostas dos meninos carregam esses valores sexistas, como “em menina bonita não se bate”. E as que não são consideradas bonitas? E “em uma mulher não se bate nem com uma flor”. Somente um deles apresenta um argumento menos sexista: “Porque sou contra a violência”.

Perguntamos para o psicólogo e escritor Frederico Mattos se ele acha que homens adultos podem ir contra os estereótipos que aprenderam durante a vida toda, ao que ele respondeu:

“Sempre podem na medida que questionarem o modelo padrão do sexualizado-esportista-empresário-amante de carros e descobrindo que podem gostar de arte, filosofia, ciências humanas e agir com afetuosidade, gentileza genuína, sensibilidade e aprenderem a ampliar seu vocabulário emocional. O homem tem à disposição um horizonte infinito de temáticas de interesses e modelos de comportamento que estão inexplorados, e a sociedade como um todo pode se abrir para a capacidade dele ser admirado mesmo na fragilidade emocional, na doença, no desemprego ou na limitação física. Dessa forma, a necessidade enraizada de se mostrar forte, viril, capacitado e ativo seja uma opção e não uma condição mínima, para que a violência, efeito colateral dessa pressão invisível, seja combatida na raiz, muito além dos efeitos do comportamento abusivo”.

Um processo de mudança e desconstrução nada simples e que, por vezes, passa pela reeducação e também a terapia. Portanto “obedecer o cérebro” não é necessariamente algo que crianças ou homens adultos saibam fazer sozinhos.

Conversamos ainda com a socióloga Wânia Pasinato, especialista no tema Feminicídio, para saber sua opinião a respeito do vídeo como ferramenta de desconstrução da violência. Segundo Pasinato, “a expressão de desconfiança e constrangimento diante do pedido/sugestão para que batam nela mostra que a violência contra as mulheres não é uma resposta automática, impulsiva ou gratuita, mas ocorre em contextos nos quais os homens sentem que têm o direito de fazê-lo porque se sentem ameaçados ou porque são confrontados pelas mulheres quando querem exercer esse direito”.

O vídeo em si pode não servir para o propósito a que veio na sua totalidade, mas é um objeto de reflexão que pode nos levar a entender e apontar problemas relacionados aos estereótipos de gênero.

Leia abaixo a entrevista.

Como você vê o vídeo Slap Her como ferramenta de desconstrução da violência contra mulheres?

Wânia - O vídeo sugere leituras interessantes. Primeiro, ele mostra que a violência contra meninas e mulheres não é algo natural e que não se reproduz como resposta automática ou irrefletida.  Talvez esse seja sua proposta central, mas traz também outros elementos interessantes como, por exemplo, o papel que é dado a Martina. Ela é apresentada aos garotos, mas eles não são apresentados a ela. Ou seja, é uma relação unidirecional em que Martina é levada para a cena como o sujeito passivo e sobre o qual se falará no restante do vídeo, mas para quem não será dada nenhuma palavra (apenas algumas expressões faciais). Como sujeito passivo, ela pode ser olhada, admirada, acariciada, provocada pelas caretas. Podemos pensar que Martina representa o ‘lugar comum’ das mulheres na sociedade. As respostas dos meninos, para além do constrangimento próprio da idade, também reproduzem o lugar comum: dizem admirar o cabelo, as mãos, os sapatos...que ela é bonita. Poderiam dizer: ela é alta, ela é simpática, ou ela é séria, mas não o fazem. E por que? Podemos pensar que essa não seria a reação que se espera de um homem diante de uma mulher.  E porque a beleza e passividade de Martina confirmam o lugar da mulher como objeto de desejo. E eles não hesitam em mostrar esse desejo. Há uma bonita oportunidade de reflexão sobre os modelos de homens e mulheres que continuam sendo reproduzidos.

 

E o que diria sobre as falas dos meninos em resposta ao pedido de darem um tapa na menina?

Wânia - As respostas são ótimas e também dão farto material para reflexão.  Por um lado, a expressão de desconfiança e constrangimento diante do pedido/sugestão para que batam nela mostra que a violência contra as mulheres não é uma resposta automática, impulsiva ou gratuita, mas ocorre em contextos nos quais os homens sentem que tem o direito de fazê-lo porque se sentem ameaçados ou porque são confrontados pelas mulheres quando querem exercer esse direito.  Martina se comporta como objeto e não se esquiva aos carinhos. Se ela se esquivasse, será que eles reagiriam diferente?

Há também algo para refletir sobre o quanto as manifestações públicas de carinho e gentileza são socialmente aceitas x o repúdio da violência física como manifestação pública. Existem contornos da reação dos meninos que são culturalmente construídos e que devem ser objetos de reflexão. O que quero dizer é que a reação deles não é apenas ‘bonitinha’ e que devemos festejar a negativa como um sinônimo de uma nova geração que repudia a violência contra a mulher. Não é tão simples assim.

As justificativas dos meninos para não bater também dão ótimas oportunidades para reflexão. Se prestarmos atenção, as respostas repõem o lugar e os papéis de gênero. Vejamos: ‘porque ela é mulher... e porque eu sou homem’, ou “porque não se bate em mulher... e porque isso é ruim’, ou a mais exemplar “Primeiro de tudo, eu não posso bater nela porque ela é bonita e é uma menina.... e o ditado diz, ‘em uma mulher não se bate nem com uma flor...ou um buquê de flores’”. Essas não são respostas animadoras porque não reconhecem o direito da mulher não ser vítima de violência. A justificativa de fundamento religioso ‘porque Jesus não quer que batamos na mulher’, também não parece um bom argumento.

Uma única resposta aparece como um alento, mas curiosamente ela passa quase desapercebida: ‘porque eu sou contra a violência.’ Pietro, que quer construir a casa de seus sonhos, é o único que nos indica a luz no fim do túnel. É sobre a sua resposta que precisamos refletir para encontrar os rumos de uma cultura de paz. ?

Para quem ficou curioso, segue o vídeo.

 


Tag's: Notícias Notícia