O Valente Não É Violento na Copa do Mundo
Voluntários distribuem adesivos com frases de O Valente Não É Violento nas FanFests, durante a Copa do Mundo

Iniciativa

O Valente Não É Violento na Copa do Mundo

Nas doze cidades brasileiras que são sedes dos jogos da Copa do Mundo, espalhadas pelas 5 regiões do país, milhares de torcedores e torcedoras dos mais diversos países se reúnem nas FanFests, eventos organizados pela FIFA que contam com grandes telões para exibição dos jogos do Mundial. O público presente supera as espectativas e tem batido recordes que variam entre 25mil e 70mil torcedores por jogo, dependendo da cidade.

As pessoas que passam pelas FanFests são gentilmente abordadas por voluntários e ganham adesivos da iniciativa O Valente Não é Violento. São dez frases diferentes em Português que conscientizam a população sobre o combate à violência contra mulheres e meninas e o fim do machismo utilizando trocadilhos relacionados ao contexto do futebol.

Lançada em 2013 em  nove países da América Latina (Brasil, Equador, Argentina, México, Bolívia, Venezuela, Cuba, Peru e Honduras), sob o marco da campanha UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres, a iniciativa O Valente Não É Violento, coordenada pela ONU Mulheres, procura engajar os homens na luta pelo fim da violência contra as mulheres e meninas e pela eliminação dos estereótipos de gênero e dos conceitos machistas que relacionam a afirmação da masculinidade ao uso de violência.

Para dar mais visibilidade à iniciativa em um momento em que diversas campanhas e marcas disputam a atenção durante a Copa do Mundo, a ONU Mulheres Brasil se uniu à campanha Proteja o Gol, do UNAIDS, que instalou trailers próximos às FanFests e conta com cerca de mil voluntários para a realização de testagem para HIV, distribuição gratuita de preservativos femininos e masculinos e de materiais informativos, entre eles, os adesivos da iniciativa O Valente Não É Violento.

Manoella Mignone (foto), uma das voluntárias que trabalha no trailer da campanha na FanFest de São Paulo, cidade mais populosa do Brasil, com cerca de 12 milhões de habitantes, localizada no Sudoeste do país, se diverte entregando os adesivos às pessoas que passam por ali. Ela entrega os adesivos e pergunta às pessoas o que acharam das frases. As respostas são as mais diversas, indo de tímidos comentários diante de frases que falam que os homens podem rir e chorar mesmo que não seja dia de jogo a apoios firmes a afirmações de que a violência contra as mulheres e o abuso sexual contra menores devem levar cartão vermelho. “Eu gosto da ideia de usar e distribuir adesivos como estes”, diz Manoella. “Acredito que, assim, as mensagens vão chegando a mais e mais pessoas. Muitas delas nunca pararam para pensar sobre o assunto antes, e isso pode ajudar a gerar reflexões, a despertar alguma consciência”.

O Brasil é um país em que os estereótipos de gênero ainda estão muito presentes e, claramente, influenciam comportamentos de violência contra mulheres e meninas. Um recente estudo realizado no país trouxe um primeiro levantamento de opiniões e percepções da sociedade brasileira sobre questões como o sexismo e a violência contra as mulheres. A pesquisa de campo revelou que muitas pessoas ainda acreditam que as mulheres é que são as responsáveis por provocar casos de agressão e estupro. Por exemplo, 58% dos entrevistados responderam que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros” e 26% afirmaram que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Os dados revelam que é preciso realizar um trabalho contínuo, profundo e composto por diversas frentes de atuação para por fim ao machismo brasileiro. No entanto, Manoella tem razão quando demonstra esperança de que simples frases cumpram a sua função de contribuir para gerar transformações de pensamentos e comportamentos.

Ao participar da logística de distribuição dos adesivos da iniciativa, o motorista André Silva, morador de Águas Lindas, cidade a 50 km da capital federal, localizada no estado com o 9º maior índice de violência doméstica do Brasil, pediu para levar materiais sobre a campanha para distribuir em sua comunidade. “Em minha cidade, vários homens querem parecer os valentões e acabam demonstrando essa valentia sendo violentos com as mulheres dentro e fora de casa”, observa André. “Achei muito interessante a campanha O Valente Não É Violento. Vejo que precisamos não apenas oferecer informações às mulheres, mas também trabalhar diretamente com os homens. Os materiais que entreguei na minha igreja foram muito bem recebidos, não sobrou nenhum. E trabalhar com as frases relacionadas ao futebol e à Copa do Mundo foi muito bom para despertar o interesse e a curiosidade dos homens”.

Para Nadine Gasman, Representante da ONU Mulheres no Brasil, o contexto esportivo no país é uma grande oportunidade de trabalhar as questões relativas à violência contra as mulheres e meninas e a desconstrução dos estereótipos de gênero. “Ao mesmo tempo em que o futebol representa uma grande paixão para boa parte da população brasileira, este também é um meio em que há muita violência entre os homens, fruto da necessidade exacerbada de provar sua masculinidade e valentia. No contexto do futebol, as mulheres também são alvo de muito preconceito. O futebol feminino é pouco valorizado no país e é muito comum encontrar tanto na cobertura de mídia como nas falas populares, representações de mulheres como pessoas incapazes de entender sobre futebol, tendo seus corpos tratados como objetos à disposição dos homens, mesmo que elas não consintam, e sendo vistas como interessadas em se casar com jogadores de futebol motivadas exclusivamente por seus altos salários. Durante a Copa do Mundo, essas representações machistas ficam mais exacerbadas, mas elas acontecem o ano todo no Brasil. Há muito trabalho a ser feito”.

Em Novembro de 2013, a iniciativa O Valente Não É Violento foi lançada no Brasil durante a última rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino. Na ocasião, seis entre os maiores times do país entraram em campo segurando a faixa com os dizeres: O Valente Não É Violento com as Mulheres. A entrada da faixa foi televisionada para todo o país. Em Dezembro, durante o Torneio Internacional de Futebol Feminino, a Seleção Brasileira de Futebol Feminino também entrou em campo em todos os jogos da competição levando a faixa da campanha.

A iniciativa O Valente Não É Violento conta também com uma página no Facebook (www.facebook.com/ovalentenaoeviolento). Desde o início da Copa do Mundo, a página já ganhou mais de 3 mil novos fãs.

Para o segundo semestre, a ONU Mulheres já está articulando novas parcerias com o Ministério dos Esportes e as jogadoras de futebol feminino para dar continuidade à iniciativa.


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