Se apanhar na escola, apanha em casa de novo.

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Se apanhar na escola, apanha em casa de novo.

O Valente não é Violento convidou alguns blogs a postarem conteúdos abordando as diversas masculinidades, as transformações dos estereótipos de gênero e o fim da violência contra as mulheres.

Confira abaixo o texto de Tâmara Freire, para o blog FemMaterna.

Você também pode acessar o post no link original: http://femmaterna.com.br/se-apanhar-na-escola-apanha-em-casa-de-novo/


Se apanhar na escola, apanha em casa de novo
Por Tâmara Freire

Essa postagem faz parte da Blogagem Coletiva: O Valente Não é Violento, organizada pela ONU Mulheres, pelo Dia Internacional dos Direitos Humanos e último dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres.


“Se apanhar na escola, apanha em casa de novo”.

Eu já ouvi essa frase uma porção de vezes. Na grande maioria das vezes, dirigida a meninos. Desde muito novos, eles são ensinados que ‘levar a pior’ é uma humilhação. Que é preciso revidar com força física. Lutar pela ‘honra’ com socos e pontapés.

A maioria dos pais/mães complementa que estão ensinando ao menino ‘a se defender’. Que ele precisa saber resolver seus problemas sozinho, sem pedir a ajuda de um adulto todas as vezes. Resolver, novamente, com socos e pontapés.

Mães e pais sabemos que há sim uma fase em que as crianças respondem a tudo de forma física: jogam as coisas no chão, quando elas não ‘obedecem’; batem nos adultos, quando frustrados pelo desejo não atendido; puxam os próprios cabelos, quando em dificuldade para entender o que sentem. Fazem isso, principalmente, porque a linguagem complexa ainda os falta. Na falta de linguagem, falta também meio eficaz de definir os próprios sentimentos e externalizá-los.

Mães e pais sabemos também que a nossa interferência muitas vezes é um incômodo. Crianças, mesmo as que recém se conhecem, geralmente são capazes de comunicar-se sem o nosso auxílio, e também de resolver impasses sem a nossa mediação.

Mas, mais do que defendê-los, quando isso acontece, o papel de qualquer mãe, pai ou cuidador é justamente o de apontar formas de resolução de conflitos que eles ainda desconhecem. Como a conversa, a concessão, o ouvir atento, a empatia com o desejo do outro, a honestidade da comunicação do próprio desejo.

Não é isso infelizmente o que muitas pessoas, imersas na nossa cultura machista e de agressividade, ensinadas a agir conforme os preceitos dessa cultura, fazem.

Arrisco-me a dizer que a cada vez que um menino é ensinado que o certo é revidar e bater de volta, uma semente para um futuro agressor está plantada. Agressores que consideram que suas honras devem ser defendidas violentamente; que o embate físico é a maneira mais honrada de se solucionar um conflito; que ‘levar a pior’ é uma humilhação; que é preciso estabelecer, por meio da violência, que com eles não se mexem.

Não são as justificativas recorrentes de tantos homens que agridem suas companheiras? Não é a motivação mais frequentes apontada por tantos homens que agridem outros homens, num nível tal que chega à selvageria?

Não se trata de condenar todo homem criado sob a égide do senso comum a respeito do que é masculinidade e de como ela deve ser expressa a um futuro de agressões. Muito menos de jogar exclusivamente na conta de mães e de pais a responsabilidade por garantir que uma geração pacífica e saudável habite a Terra no futuro. Mas de alertar para o fato de que os estereótipos nocivos também podem ser reproduzidos dentro das nossas casas.

Afinal de contas, com um dado de que 56% dos homens já tiveram alguma atitude que se configura como violência doméstica, não se pode ignorar que algo de muito errado ocorreu na formação desses meninos que são adultos hoje. E se é improvável concluir que todos esses 56% tem, cada uma deles, um problema particular que os levem a considerar a violência como via legítima, não há outro que podemos culpar senão a cultura machista em que vivemos. Que, entre outras coisas, leva mães e pais a acreditarem que criar seu filho para revidar agressões é defendê-lo. E obriga mães a permanecerem unidas a maridos violentos, situação que pode deixar nos filhos a impressão de que a violência doméstica não é somente algo normal, como aceitável. E, uma coisa unida na outra, leva filhos da violência doméstica a se tornarem novos perpetuadores dessa mesma violência.

Esse ciclo precisa parar. Não naturalize a agressividade na sua criança. Não permita que outros o façam. A luta pelo fim da violência contra a mulher fica mais fácil se ajudarmos a criar novos aliados.


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