Machistas não gostam de mulheres. Aliás, não gostam de ninguém.

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Machistas não gostam de mulheres. Aliás, não gostam de ninguém.

O Valente não é Violento convidou alguns blogs a postarem conteúdos abordando as diversas masculinidades, as transformações dos estereótipos de gênero e o fim da violência contra as mulheres.

Confira abaixo o texto de Robson Fernando de Souza, para o blog Escreva Lola Escreva.

Você também pode acessar o post no link original: http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/12/guest-post-machistas-nao-gostam-de.html


Machistas não gostam de Mulheres. Aliás, não gostam de ninguém
Por Robson Fernando de Souza
Introdução: Lola Aronovich

Ontem recebi um convite da ONU Mulheres para participar da blogagem coletiva Dia Internacional dos Direitos Humanos, que coincide com o último dos 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. A campanha internacional chama-se "O Valente não é Violento", e tem o objetivo de estimular a mudança de atitudes e comportamentos machistas, enfatizando a responsabilidade que os homens devem assumir na eliminação da violência contra mulheres e meninas. A iniciativa trata de questionar e transformar os estereótipos de gênero, principalmente os estereótipos machistas ligados a comportamentos que muitos homens assumem para provar sua masculinidade e valentia. 
 
Apoio a campanha, e costumo escreverbastante sobre masculinidade, violênciae estereótipos de gênero. Mas, pra mim, é impossível escrever um texto de um dia pro outro, ainda mais no final do semestre na universidade.
 
Para que o blog possa participar e prestigiar a campanha, publico o guest post do Robson sobre comportamento machista, e sobre o que esse comportamento revela: não só misoginia, mas também uma profunda misantropia. E concordo com o Robson, colaborador habitual aqui do blog, e autor do Consciência e do Veganagente: machistas não gostam de ninguém. 
 
 
O homem heterossexual machista adora dizer para seus amigos: “Eu gosto é de mulher”, “Adoro pegar mulé”, entre outras formas de afirmar que gosta das mulheres -– especificamente as cis-heterossexuais dentro do padrão corporal e facial de beleza hegemônico. Mas se formos observar precisamente, perceberemos que esse tipo de homem, ao contrário do que vive repetindo, não gosta de mulheres. Menos ainda quando se orgulha da cultura machista que ajuda a perpetuar e tem a misoginia como “filosofia” de vida.
 O machista não gosta de mulheres. O que ele gosta é de possuir uma mulher, de tê-la como serva afetiva que faça as vontades dele, lhe supra as carências e lhe sirva com submissão, não tolerando ele qualquer ato de rebeldia da parte dela.
Ele gosta dos corpos das mulheres consideradas bonitas e gostosas. Gosta de usá-los como brinquedos sexuais autômatos, jogando-os fora depois da transa, no caso daqueles que não falam mais com suas ficantes sexuais depois da noite na cama, ou reusando-os depois, no caso daqueles que “possuem” uma mulher que chamem de “minha”. Gostam de usá-las para descarregar seu tesão, sua pulsão sexual, seja pelo sexo hétero, seja imaginariamente pela masturbação.
 
Ele gosta, junto com outros machistas, de reafirmar seu status de dominadores das mulheres. Gosta é disso: de dominar, nunca tratar com igualdade e sequer respeito, uma ou mais mulheres. Gosta de que existam mulheres no mundo, uma vez que isso lhe permite ter poder e posse sobre alguém e posicionar-se como um indivíduo superior, poderoso, que manda e desmanda.
 
Ele gosta de ter alguém em quem mandar em casa. Gosta de ter alguém que satisfaça aos seus desejos de sexo -– mesmo que a mulher dominada não consinta -– e lhe responda positivamente quando ele lhe pergunta se ela o ama, mesmo que não haja amor verdadeiro e mútuo envolvido. Gosta de ver a casa limpa; de ser servido com as refeições de casa; de ver filhos "varões" sendo, por meio de violência simbólica, psicológica e física, “educados” e preparados para serem “poderosos” contra as mulheres que dominarão no futuro.
 O homem hétero machista de fato não gosta das mulheres. Não as deseja tal como elas são. Não as ama a ponto de reconhecê-las como moralmente iguais a ele, dotadas da mesma dignidade moral, como pessoas independentes que têm seus próprios desejos e interesses. Não reconhece ou respeita suas liberdades. Não lhes vê valor além da beleza física (reconhecida apenas em algumas) e do trabalho doméstico. Seria absurdo dizer que alguém que trata mulheres assim gosta delas.
 
Se gostasse, iria considerá-las moralmente iguais a ele, em direitos e dignidade. Nunca promoveria slut shaming, o ato de condenar e humilhar em público ou em privado uma ou mais mulheres cujo “crime” foi serem sexualmente livres, donas de seus próprios corpos. Jamais culparia a vítima pelo estupro ou assédio sexual que sofreu -– responsabilizaria e condenaria o criminoso, ao invés. Muito pelo contrário, respeitaria integralmente as vontades sexuais delas.
Nunca exploraria aquela que ele chama de “minha mulher” como se fosse sua serva. Em vez disso, exerceria as mesmas funções domésticas e familiares que ela exerce, seja junto dela, seja na ausência dela.
 
Jamais rejeitaria os valores e costumes culturalmente convencionados como femininos como se fossem humilhantes e inferiores àqueles considerados masculinos. Nunca julgaria que o papel da mulher é obedecer e servir ao homem. De jeito nenhum usaria livros religiosos ou teorias pseudocientíficas como provas de que as mulheres são seres humanos secundários e devem reverência e servidão aos homens, humanos que consideram primários.
 
E independentemente de aceitação ou rejeição sexual e/ou afetiva, sempre desejaria que as mulheres em geral vivessem felizes em sua independência e autoafirmação, tendo-o ou não como namorado ou ficante sexual. Rejeitaria condicionar a felicidade e dignidade de uma mulher ao pré-requisito de ela ser “sua mulher”.
 
Por outro lado, se homens héteros machistas não gostam de mulheres, também não gostam verdadeiramente nem dos homens. Nunca devemos confundir esses indivíduos com homens gays. Não é porque não gostam das mulheres que eles necessariamente tenham apego a outros homens.
 
Eles podem até esboçar serem amigos de outros homens, mas mesmo essa amizade é algo sempre condicional e limitado para um machista. Se o outro homem for um aliado honesto do feminismo (nunca alguém que queira falar mais alto do que as mulheres e as pessoas não binárias dentro do movimento feminista); tiver muitos gostos por músicas, objetos, hábitos etc considerados “de mulher”; tiver um trabalho considerado “feminino”; e/ou se assumir gay e/ou trans, o hétero machista vai provavelmente lhe rejeitar ou cortar a amizade.
 
O homem hétero machista não gosta de verdade sequer dos seus filhos meninos, já que até mesmo seu suposto “amor paterno” é algo condicional. O filho terá que desempenhar “impecavelmente” o papel de gênero que lhe foi imposto e ser heterossexual. Ai dele se começar a gostar de “música de menina”, brincar de boneca, ser pacífico e inimigo da violência, ter comportamento considerado “afeminado”, entre outras ações e atribuições abominadas pelos machistas. O pai machista reagirá com violência física e psicológica e poderá até mesmo deserdar e expulsar o filho que rejeitou o papel de “machão”.
 
Da mesma forma, não perde a oportunidade de ofender com machismo, classismo e homofobia homens que torcem para outros times de futebol. Não hesita em agredir ou mesmo matar outros homens tão logo aconteça algo que, se não fosse o machismo, poderia ser resolvido com diálogo. Odeia e abomina homens que amam outros homens, considerando-se que geralmente o machista também é um profundo homofóbico. E também atende prontamente quando as forças armadas lhe ordenam que mate outros homens num campo de batalha.
 
Esses fatos são o suficiente para nos fazer perceber: homens machistas heterossexuais não gostam de mulheres. Nem de outros homens, nem de seus próprios filhos. Não gostam verdadeiramente de ninguém. Só irão adquirir a capacidade de gostar quando aprenderem o valor do amor e do respeito incondicional. E isso implicará inexoravelmente que deixem de ser machistas, que expulsem o chauvinismo macho e a misoginia de suas mentes e vidas, que abandonem o ódio e o reacionarismo e compreendam e respeitem o feminismo e suas demandas.

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