Você não precisa ser covarde

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Você não precisa ser covarde

O Valente não é Violento convidou alguns blogs a postarem conteúdos abordando as diversas masculinidades, as transformações dos estereótipos de gênero e o fim da violência contra as mulheres.

Confira abaixo o texto de Letícia Zenevich, para o blog Notas de Rodapé.

Você também pode acessar o post no link original: http://an-appearance.blogspot.com.br/2013/12/voce-nao-precisa-ser-covarde.html

 

Você não precisa ser covarde.
Por Letícia Zenevich

Estou cansada da covardia. De caras enormes assustando, assediando mulheres na rua. Estou cansada da covardia dos que porventura não gritam junto, mas que deixam claro que estamos sozinhas, que eles podem até não concordar com a violência, mas estão do lado dos agressores.

 
O slogan da campanha da ONU para os 16 dias de ativismo contra a violência de gênero deste ano é justamente "o valente não é violento". Faz sentido. O violento é um covarde da própria voz. O violento é tão covarde de si que inventa ciúmes para menosprezar seu próprio amor. O violento é tão fraco que não controla os próprios braços. O violento é tão inseguro que não pode ouvir falar em feminismo. O violento é tão vulgar que precisa tecer comentário sobre cada bunda que vê. O violento é tão covarde que não consegue erguer a voz para ajudar uma mulher, porque a estaria erguendo contra um homem. O violento é tão medroso que contesta cada pesquisa empírica feita, porque acha que não poderia competir de igual para igual com uma mulher, por isso se agarra como louco à desigualdade vigente. 

Estou exausta do violento que é tão desastrado que tem de falar mal da vagina para esconder que não sabe o que fazer com ela. Cansada dos risinhos dos violentos que amam falar de bundas cada vez que se fala em vagina. VAGINA. MENSTRUAÇÃO. BOCETA. Que a comparam com peixe porque sentem medo de naufragar. Estou cansada de ver sêmen escorrer solto por conversas e filmes pornô, mas sangue de menstruação, nada, que-nojo, não fala disso! (leia aqui o texto genial da Eliane Brum sobre o assunto). Do covarde que é tão, mas tão inseguro, que fica apavorado ao ouvir que eu transo sem problemas de moralidade, com medo de que então eu possa dizer que ele não sabe o que faz. Do covarde que por causa disso tem de gritar - PUTA VADIA SEM-VERGONHA. Das covardes que têm tanto medo de que eu tenha uma vida sexual boa que fazem coro: PUTA VADIA SEM VERGONHA NÃO SE DÁ O RESPEITO. Se dar o respeito é não dar, para não intimidar nenhum covarde que porventura não saiba transar. 

 Não posso mais com essa ideia, esse ego infantil, que a campanha da ONU capturou bem e que talvez seja necessária, mas que é patética, de dizer para o homem, olha aqui, menino, você pode ser valente sem precisar espancar uma mulher para isso. Como é que a gente chegou tão longe no surreal dessa frase? 

Com efeito, foram necessários anos e anos de legitimação simbólica, de Código Penal a permitir crimes de honra, a permitir que mulheres que não fossem exclusivamente objetos dos homens fossem mortas, queimadas, a pedradas, com um tiro no quarto, caídas no ostracismo social. Foram necessárias piadas de estupro e assédio em horário nobre da televisão, a hipersexualização de mulatas, negras e trans*,  mitos de mulher-decente para as brancas, desprezo contra as trabalhadoras sexuais, contra as mães solteiras, contra as casadas sem filhos, contra as lésbicas, contra as desquitadas, separadas, divorciadas e amantes. Para criar essa violência toda foi necessário, basicamente, produzir um nojo contra toda mulher que não fosse monogâmica e maternal a vida inteira.

Destruir possibilidades de vida não foi um ato de coragem, mas uma das maiores covardias já feitas. A única mulher com a qual o homem violento conseguia lidar era essa, a decente, virginal para não ter com quem fazer comparações, monogâmica para garantir a posse, passível de morte sem crime no caso de traição. A mulher criada pelo homem violento foi uma mulher que aceitava a violência. Isso não foi valentia. Isso foi medo. 

Por isso, para mim, essa campanha podia ser ainda mais honesta: homem, você não precisa ser covarde. Você não precisa sentir medo da igualdade. Você não precisa manter os padrões e papéis de masculino e feminino com sua mãe, irmã, companheira, namorada, amiga, amante ou esposa. Não precisa ter medo de mudarmos juntos, eu e você. 

Não, homem, você não precisa ser agressivo para ser valente. O silêncio também cria heróis. Não, homem, você não precisa ser valente para não agredir mulheres, basta que seja humano. 

No mundo pelo qual luto, nenhum homem precisa ser valente. Nenhuma mulher precisa ser vítima.


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Este post foi feito a convite da ONU Mulheres, como parte de uma blogagem coletiva hoje, 10/12, Dia Internacional dos Direitos Humanos e último dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, que este ano teve como slogan "O Valente não é Violento". Saiba mais aqui sobre a campanha.


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