Adultos Violentos. Como educá-los?

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Adultos Violentos. Como educá-los?

O Valente não é Violento convidou alguns blogs a postarem conteúdos abordando as diversas masculinidades, as transformações dos estereótipos de gênero e o fim da violência contra as mulheres.

Confira abaixo o texto de Denise Rangel, para o blog Sturm Und Drang! 

Você também pode acessar o post no link original: http://drang.com.br/blog/2013/12/10/adultos-violentos-como-educa-los/

 

Adultos violentos. Como “educá-los”?
Por Denise Rangel

Hoje, dia 10, é dia de blogagem coletiva O Valente Não é Violento, pelo Dia Internacional dos Direitos Humanos e pelo último dos 16 Dias de Ativismo pelo fim da violência contra as mulheres, convocada pela ONU Mulher, com o objetivo de estimular a mudança de atitudes e comportamentos machistas, enfatizando a responsabilidade que os homens devem assumir na eliminação da violência contra as mulheres e meninas. 
 
Autoritarismo e discurso de poder
Durante os anos em que atuei como professora, tive contato com crianças, adolescentes e jovens que sequer conheceram os pais, criados por avós ou parentes, que viviam em favelas, desprovidos de bens materiais e afetivos, muitos reféns do movimento criminoso dentro das comunidades, convivendo com toda sorte de adversidade e violência, das quais eram vítimas e reprodutores.

Houve tempo em que fui muito dura e exigente com estes meninos e meninas. Várias vezes “bati de frente” com alunos violentos e agressivos, sem conseguir algum resultado positivo. Combater violência com autoritarismo e discurso de poder só fazia estimular a rebeldia e o confronto. Quando expostos à disciplina rígida e intolerância no âmbito familiar ou escolar, alunos respondiam com revolta a qualquer forma de disciplina com desacato à autoridade e comportamento agressivo.

A convivência com estas crianças e adolescentes me mostrou que o acolhimento e o respeito dependem de como olhamos o outro e interagimos com ele.  Eu apenas desejava que eles entendessem que a violência, tão comum ao universo deles, não era uma regra. Meu modo de ver a violência e os “violentos” foi mudando ao longo dos anos, até que passei a tratá-los com mais humanidade, tolerância, carinho.

Carinho e atenção, no meu caso específico, como educadora, foi o que me livrou de ser assaltada, certa vez, na rua, pelo simples fato de eu dizer para aquele menino “doidão” que me assaltava, que ele era meu aluno. Tal declaração foi suficiente para ele me pedir desculpas, devolver-me as chaves do carro e me acompanhar até a porta do local para onde eu pretendia ir.

Nem todos os professores e responsáveis por estas crianças e adolescentes têm a mesma visão que a minha e reproduzem o discurso do autoritarismo e do poder, muitas vezes corroborados com agressões e castigos físicos e emocionais.  À escola tem sido transferido o papel que compete aos pais, muitas vezes, e o próprio aluno reconhece que este não é o papel dela, quando diz para um educador: “você não é meu pai (ou mãe)”!

Nada justifica a violência
Eu apenas lutava contra meus moinhos de vento.  Não tinha e ainda não tenho soluções prontas para a violência cotidiana contra meninas e meninos, mulheres e homens, negros e índios, deficientes e toda classe de excluídos. Apenas procurei apontar um caminho para meus alunos, e, mesmo assim, não pude evitar que muitos deles tombassem vítimas da violência em que estavam diretamente envolvidos.

Não tinham escolha? Creio que sim. Talvez as oportunidades é que lhes eram desiguais. Mesmo tratados com amor e respeito, muitos fizeram escolhas erradas. Alguns, em busca de algo para fugir do que os oprimia, recorreram às drogas para aliviá-los. Outros, por ver no dinheiro rápido a saída para o que a sociedade lhes negava, escolheram o crime.

Nada justifica a violência. É o que dizemos e ouvimos o tempo todo diante da violência cotidiana. Entretanto, em que momento procuramos ver na pessoa violenta alguém que foi, ou ainda está sendo, de alguma forma, uma criança violentada 24 horas por dia? Quem está disposto a refletir que a criança é um ser em desenvolvimento, cuja aprendizagem ocorre pela imitação de modelos, e, para isto, necessita de adultos “educados” que sejam  bons exemplos a serem seguidos?

Educamos os adultos?
Gritamos por justiça quando a violência acontece. Eu também me incluo neste grupo. Revolto-me diante de toda a sorte de atos violentos cometidos por adultos contra quem não pode se defender. O que fazemos então? Educamos os adultos transgressores? Tarde demais! Para eles só restam a prisão ou a pena de morte.

Não seria mais eficiente educarmos as crianças? Não consigo vislumbrar outro caminho para disseminar a violência contra mulheres, crianças e demais grupos em situação de risco. De outro modo continuaremos a exigir respeito aos direitos humanos, apenas para as pessoas “boas”, segundo o critério da sociedade.


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