Isso não é valentia. O nome disso é fraqueza

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Isso não é valentia. O nome disso é fraqueza

O Valente não é Violento convidou alguns blogs a postarem conteúdos abordando as diversas masculinidades, as transformações dos estereótipos de gênero e o fim da violência contra as mulheres.

Confira abaixo o texto de Fernanda, para o blog Uma Feminista Negra.

Você também pode acessar o post no link original: http://www.umafeministanegra.net/feminismo/valentia/


Isso não é valentia. O nome disso é fraqueza.
Por Fernanda


A maioria dos parentais que conheço estão completamente perdidos sobre o que fazer. Alguns são completamente ausentes, compensando a saudade e a culpa com presentes. Outros pecam pelo excesso de zelo, não deixando a criança descobrir o mundo, cair, se sujar, apenas ser.

Outros desejam que elas simplesmente não cresçam, vivendo desde os primeiros dias de parentalidade a chamada síndrome do ninho vazio. Todos são modelos indesejáveis. Mas existe um tipo que se destaca nessa multidão, o homem que expressa sua valentia e seu amor através da violência. Mais ainda quando esse homem acredita que é assim que se educa.

Sim, porque é exatamente assim que esse homem enxerga a coisa. O erro é pensar que ele é alguém distante. É praticamente assim que pensam todos os homens com quem meu companheiro trabalha. São pessoas que se consideram e são consideradas boas, nem de longe seriam identificadas com os perfis hediondos mostrados pelos programas policiais. Eles tem família, empregos entre às 9h00 e às 17h00, pagam seus impostos e frequentam festas de natal. Porém, todas as vezes que pude ouvi-los falar entre si desapercebidos da minha presença fiquei estupefata.

Porque eles pensam exatamente como masculinistas ainda que não saibam disso. O mais temeroso é que esse homem acredita que ser violento expressa valentia, coragem e bravura.

Entre os absurdos que já tive o desprazer de escutar foi de que meninas precisam apanhar para que não se tornem sem vergonhas, seja lá o que esse conceito queira dizer. Essa mesma “família” acredita ser normal e desejável que as filhas sintam pavor do pai. Tem até gente que se orgulha do senhor cinto e da senhora paulada. Para esses homens esse é o tipo de conversa adequada inclusive em festas infantis. Eles acreditam que a violência é um método viável de se educar os filhos e de amar. Outros homens não batem mas recorrem à violência e à tortura psicológica para submeter companheiras e filhas. Para essas família, feminicídos e infanticídios são palavras desconhecidas que no máximo acontecem na casas dos outros, nunca por perto.

É agindo dessa forma você autoriza outros homens a fazer o mesmo. Se você bate em sua filha com que argumentos poderá defendê-la quando o namorado dela (mais uma vez uma referência heterossexual por motivos didáticos) quiser fazer o mesmo? Esse desencadear de estímulos e ações violentas que se retroalimentam, se somam e constituem algo que você talvez nunca tenha ouvido falar, mas está a defender – o sexismo, um sistema de ideias e comportamentos (sic) que mata mulheres e meninas todos os dias. Quando não mata, deixa sequelas físicas e emocionais tão profundas que talvez nunca venham a ser totalmente curadas. É ferida que dói no corpo e na alma.

Você está dizendo que os filhos não precisam se educar, não  precisam serem indivíduos melhores. Basta que aprendem a exercer a violência. Não precisam ser inteligentes, carinhosos e compreensivos. Não precisam entender de estratégia, basta fazer uso da força bruta. Está dizendo que meninos simplesmente tem o direito de subjugar para conseguir aquilo que querem, no tapa, no grito. Que tudo se resolve pela lei do mais forte. Que isso seria coragem e não a manifestação de algo que conhecemos como tortura, seja física, seja psicológica. Você está dizendo que acabou o amor.

É por isso que o pai que bate numa menina você não a está educando. Está defendendo a ideia de que ela merece apanhar, que deve ser submissa, que é inferior. Que deve querer agradar aos homens que encontrar pelo caminho, preferencialmente calada. Que sua vida não tem outro destino que não o casamento, a vida e ao trabalho domésticos. Que na sua vida adulta ela deverá se calar quando alguém a agredir. Não estamos apenas perdendo vidas mas também colocando em risco um dos pilares de nossa vida em sociedade, a educação. Quando educar deixa de ser o ato de mudar si mesmo para que possamos aprender e ensinar outros, a nossa humanidade é colocada em questão.

Quem te ensinou que bater é sinônimo de virilidade estava errado.

Isso não é valentia, o nome disso é fraqueza.

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Este post integra a campanha “O valente não é violento“, convocada pela Onu Mulheres.


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